quinta-feira, 28 de março de 2013

Por vezes simplesmente morres






 
Porque morres lentamente quando o dia expira mornamente
E o teu olhar balança na neblina dessa estrada
Vendo o caminho longo que te escasseia a esperança
E sabes que te afastaste de tudo embebido em ti

Às vezes morres sem olhar o céu
E os pássaros cantam o hino da libertação, e deixas cair o corpo num impasse
Talvez as ruínas desse tempo te levem a ver a morte
E despertes desse sono induzido pela velha fada

Por vezes simplesmente morres, como se o rio secasse 

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mulher






Mulher, 
Meretriz do destino efémero
Deusa do erotismo e da beleza

Divindade da reprodução 
Por ti os poetas choram
Por ti os artistas criam

E os filhos nascem e as flores brotam
 
Mulher, que alumias o altar dos homens.

domingo, 3 de março de 2013

Torre de marfim







Construí torres que se fizeram de marfim
Trajei-me de comediante em busca da alegria
Espalhei risos tentando sorrir
Procurei amar sem sentir o amor

Talvez os lamentos da ribeira me despertem
E os murmúrios da ilha me contem histórias
Nas entrelinhas de um poema que me asfixia

Agora ouço a respiração da noite
E sinto a misteriosa sedução do vampiro

Talvez deixe de amar 
Em torres de marfim…

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Procuram-se os anjos




Hora sagrada dos murmúrios do templo
 
Os sinos cantam o profano
 
Na primeira hora da luz do sol
 
Raiando a pátria
 
 
No altar nasce o corpo e o sangue
 
No grito do falcão, a liberdade
 
E desenham-se borboletas no céu
 
 
Vamos onde nos levam os pássaros
 
E procuram-se os anjos
 
Nos ventos que varrem a pátria
 
 

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Eu



Talvez a demora da vida me leve a marcar pegadas que estão por vir

E dou por mim fugindo de mim em busca do todo que me falta

E é urgente as luas acelerarem as marés

E o meu encontro no centro da tempestade, bebendo a última gota de sal

 

Talvez a demora da vida me encontre e denuncie

E eu obedientemente espere por ela

Enquanto me perfumo de terra e mar

 

Porque nenhuma palavra fala de mim

Apenas esse cheiro a mar…

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Quem és





 



Um dia chegaste trajado de Pierrot, trazias no peito a rosa brava,
E no coração o carnaval ao som de um samba melancólico
Chegaste vestido de inocência, caminhando na praça com graça
Com uma lágrima brilhante traçando a estrada no rosto

E falaste-me dos carnavais do mundo,
Aqueles que te deixaram essa eterna lágrima
Que te fizeram vestir essa constante tristeza dentro dos trajes de lentejoulas

 Um dia vi-te partir no sambódromo, em busca de outro carnaval

Aquele que te enxugasse a lágrima

E eu, trajei-me de Columbina.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Não penso a beleza





 

Que penso eu sobre a beleza
 se apenas a amo

Que penso eu,
 quando os relâmpagos embelezam a noite
E a brisa salgada sobe a montanha
Adornando a noite com a melodia das baleias

Que penso eu,
 se apenas sinto a beleza desprovida de razão

E porque creio num mundo com sentidos
 e amo essa inocência que não pensa
Sinto os anjos e as fadas,
 neste reino que não é deste mundo

Então amo este mundo destituído de razão,

Onde desvendo o mistério da beleza 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Pessoas

 





Há pessoas que passam e levam consigo um pedaço do meu nome
e eis-me a mim, contemplando a saudade.
 
Há pessoas que passam e deixam esse cheiro de jasmim que me acompanha,
 quando vou em busca do som da arpa.
 
Pessoas que ficam, num pedaço de mim que se fez delas,
 e eis-me procurando nas estrelas.
 
Pessoas de passagem, que a solidão esquece.


sábado, 12 de janeiro de 2013

Portugal







E foi no adeus da  primavera


Que vi o inverno reflectido nos olhos húmidos

De quem amassa o pão e faz o vinho

Esperando o regresso das aves azuis
Mesmo que coma desse pão e beba desse vinho

Penetra-me a desilusão de Deus

E a névoa salgada dessa pátria morna

Não me deixa ouvir a melodia das marés
 


domingo, 6 de janeiro de 2013

Não sei









Existe uma dúvida
 entre os meus passos e a estrada que vejo
E a sincronia da vida não me desvanece o mistério
Que todas as alvoradas me despertam,
inquietando-me a alma

Não sei onde quero ir, 
Se os meus instintos invocam as musas ocultas
A razão me chama, numa rotina friamente falsa
E esta incerteza
 entre os meus passos e a estrada que vejo.

E eu, que tantas vezes me sinto tão real
Encontro a metáfora nessa paisagem.