domingo, 19 de março de 2017

Pai



Quero escrever sobre ti, pai, talvez sobre a saudade escondida, talvez sobre a resignação de apenas te recordar


Quero escrever sobre ti, pai, talvez sobre esta tristeza camuflada de querer esconder um remorso injustificado


Talvez escrever o que nunca escrevi, talvez chorar nas palavras,…não sei


Quero escrever para ti…talvez só para te dizer que vives em cada palavra que ainda escreverei sobre ti…

sábado, 18 de março de 2017

A tua amoreira hoje deu flor, Pai




Quando saboreávamos o gosto das amoras

Disseste que serias essa amoreira

Enraizada na terra com folhas no céu

Que daria flor no inverno

E rosas no verão



Sabias viver apesar da proximidade do fim

Vivias para mim, para as tardes na amoreira

E eu chorava silenciosamente a dor

A minha dor, a tua dor, a dor do fim



A tua amoreira hoje deu flor

E eu amo-te silenciosamente



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Silêncio





Há uma beleza inata nas palavras do silêncio,
como se de repente eu não precisasse de nada
se não desta brisa salgada que me enche o peito
e me faz esquecer que existem palavras

E este silêncio

que faz de mim um poeta vazio
Refúgio incondicional de tudo o que vivo
Que me leva à condição de ser
Sem saber aquilo que sou

Amo a beleza do silêncio
A ignorância do vazio



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Carnaval



Sambavam, genuinamente descalços, embrenhados na melancolia dos tambores ao ritmo orgásmico de uma dança despida de pudores. Mergulhavam no esquecimento do que eram, bebiam do sonho um dia castrado, e dançavam, uma dança quase agonizante, num misto de prazer e dor, de quem ama até ao vazio da morte.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Morte

Foto de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/?fref=ts



Um dia a morte chega,

silenciosa e calma como a noite

Celebrando a beleza da vida,

Aquela que devias viver


Deixaste o amor escondido

na futilidade da posse

Deixaste a vida perdida

nas sombras do medo


Deixaste a primavera partir

Sem que nela colhesses as flores.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Destino






Era só agora, e tudo acontecia agora, sem amanhã, sem destino profetizado pelas bruxas. Eram felizes assim, só conhecendo o hoje. Crianças de pés descalços e sol no olhar, sem grades nem medos, com a inocente coragem do amor ainda virgem.
Riam como se não houvesse destino, dançavam nas chuvas mornas e beijavam nas noites mais belas do mundo, sem dor e sem saudade.
Eram crianças sem destino, de pés descalços e sol no olhar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Fuga



Não posso fugir de mim, ainda que ame com medo de amar e ressuscite o meu fantasma moribundo. Liberto a fenix de penas douradas e desenho palavras de vento, sempre que pinto o teu rosto na areia.

Um dia, deixarei a minha nudez reflectida na beira do porto, e vestir-me-ei de mar, apenas e só de mar, para poder te amar.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

É Natal



É Natal, e nós, deuses mergulhados numa teimosa amnésia

Só agora acendemos luzes nos templos negros

Como se o agora mergulhasse no eterno, num circulo sem vazio.

Mas, fomos feitos assim, com amor, para o amor

E sim, pode ser por toda a vida, por toda a morte

Por todos os Natais sem Natais.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Gaia

Foto de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/?fref=ts
Eu amo todas as coisas que sinto, sensações vindas de um tempo longínquo que nunca deixei de amar, sem mesmo saber. Algo que se mistura na terra e na pele, que me traz a nostalgia de uma antiga existência, que me abre o coração para os devas da floresta, para as sereias dos oceanos, que me faz procurar o canto das baleias.

Eu amo o espírito entranhado nas árvores, a linguagem dos ventos e das tempestades, a ternura da lua e o uivo dos lobos.

E nunca deixei de amar, sem mesmo saber.


Nunca deixei de viver, sem mesmo saber, tantas e tantas vidas em ti, Gaia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Silêncio



Porque o silêncio me envolve
Em palavras que não escuto
Em sons que me escondem de mim
Na nudez da verdade

Porque o silêncio me despe
Nas fronteiras do ruído da mente
Me estrangula no sufoco da voz
Me desnuda de mim

Porque eu sou
A nudez do silêncio