quinta-feira, 25 de junho de 2020

ESCREVO (OU NÃO) O AMOR






Quero escrever amor, romântico ou não, incondicional ou não.

Escrevo algo parecido com poesia, onde a emoção pinta as palavras e a maresia perfuma o papel
deixando-me a pele com sabor a sal e a alma inquieta vagueando nas marés.

As palavras insistem em sair incertas, neste amor que transcende o carnal, inspirado no manto de sol que me cobre a pele de dourado.



E ainda assim, o canto dos lobos desperta-me para uma dúbia existência terrena, onde a vida escancarada me retorna o eco da montanha e eu tento, outra e outra vez, escrever o amor.

Podia escrever assim, simples, um pedaço de silêncio vindo de tantas e distantes vidas.


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Sem raízes






Não tenho raízes.

Sou filha da chuva, do mar e da terra.

Sou do todo e do nada,

De onde emana perfume de mar, ~
ou terra molhada com nuances de jasmim

Da floresta negra com danças de deuses,

das estrelas de prata, das flores da lua

Não tenho raízes, amarras, correntes….

sou leve, leve… leve…

Sou brisa ténue, sou folhas de outono correndo no rio

boiando sem fim…entregue ao todo

Vivendo sem fim

Sem raízes... e vivendo, vivendo



quarta-feira, 4 de março de 2020

Noite



Cai o pano escuro,
lentamente,
entre o ocaso e a prata da lua
como se a vida se esfumasse numa bruma morna
e o tempo,
aquele tempo que desmascara tudo,
 me abrisse os palcos.
Cai a luz,
e nessa sombra serena onde me encontro comigo
chega a beleza da solidão disfarçada.
Uso o tempo num balançar de sonhos lúcidos
com máscaras e exaustos contornos
caindo no epicentro da noite.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Fé sem templos






Vives sem rede, porque sabes que se caíres cais nas asas de um anjo.
Caminhas com um mapa em branco, onde a indicação é te dada no momento da chegada e segues o teu caminho, porque esse é apenas e só o teu caminho.
Esta é a fé que tanto ouves falar e que sentes exterior a ti.
Esperas na estação e sabes que quando for a tua vez o comboio chegará e tu decidirás se embarcas ou não, se esperas o próximo… ou não.
E mais uma vez fazes o teu caminho, porque qualquer que ele seja levar-te-á sempre às asas de um anjo.
Esta é a tua fé, aquela que julgas não sentir por não precisares de templos.
A tua fé sem templos.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Aquele Natal





Volta aquela nostalgia do Natal em família onde a beleza estava nos sonhos e na imaginação sem fronteiras, sem pressas nem ambições, como se o amor se eternizasse e nada mais importasse e de nada mais precisasses para tocar a felicidade.
Era assim aquele Natal, com aromas suaves e brilho nos olhares, crianças que traziam o divino, transbordando abundância de tudo, mesmo sem o nada de agora.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Mulheres



Amam como quem ama no adeus e choram nos orvalhos da madruga. Deusas ressuscitadas do cansaço, do desespero, da razão. Da beleza selvagem, da paixão dolorosa. Dos filhos paridos no medo do mundo, Afrodites da terra e do mar onde dançam em obscuros desejos.
Por vós tocam os sinos nos campanários, elevam-se as vozes dos templos, ecoam o pranto dos poetas.
Por vós a vida pulsa.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Para ti, que estás para além do céu







E o meu coração encontra-te, na serenidade do mar ou na fúria do vulcão, na brisa morna com cheiro a maresia ou no gosto das algas.

O meu coração encontra-te no último suspiro da terra, no último raio da luz do sol, na luz cândida das fases lunares. E tudo fica mais belo, como se descesse a vibração do céu e eu encontrasse o caminho de casa.

Mas quando te perco, é porque os meus olhos não estão prontos para te ver, e essa será a noite escura da alma, ainda que continue a amar-te.