sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Carta de amor




Eram feitos de música, os teus passos, quando chegavas sem hora marcada, sempre nas marés altas, onde a lua cheia iluminava calmamente o teu caminho até mim.

E eu preparava o meu coração, a minha pele com banho de jasmim, o meu corpo sereno e desperto, te aguardando sem pensar em despedidas. Mas sim, essa foi a última noite que se ouviu a melodia da harpa no meio da praia, a última noite que estiveste em mim mergulhado, como se o amanhã não fosse acontecer.

E agora, sempre que batem as ondas no ilhéu anunciando a vinda da maré, eu caminho na estrada de prata até sentir a areia molhada.  E sim, espero debaixo da estrela com o teu nome, porque mesmo não te vendo com os meus olhos marejados de água, consigo sentir o teu cheiro a algas, como se o mar te guardasse só para mim.

Sim, o mar guarda-te só para mim, porque só eu consigo ouvir-te na melodia das marés, só eu consigo ver-te na estrela polar, só eu sinto a tua vida tornando a morte numa miragem.


Quando voltarem a subir as marés lá estarei, meu amor, levarei a minha harpa e tocarei para as estrelas a tua música até que o mar te desperte.



segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Feliz Aniversário, Mãe




Trouxe-te hoje, no perfume do teu colo onde o amor não te apaga, onde a dor esmorece, onde tu acordas para mim como se o passado fosse agora.



Trouxe-te mãe, para o pedaço de mim em falta, porque viverás sempre no retrato guardado no baú das rosas brancas e em cada aniversário devolvo-te à vida, como se a morte fosse apenas uma miragem e só o amor fosse o caminho.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Amar



Queria eu ainda amar-te, sem adiar a saudade de tantas existências, do amor ancestral em amanheceres indecisos.
Via-te caminhar com pés de algas e cheiro de mar, de um qualquer horizonte pintado de purpura, ainda que renascendo da nostalgia da aurora atrasada.
Queria eu ainda amar-te, antes de descer a escuridão e cair a solidão, para não te adiar por mais um século.
Para ti escrevi a saudade, por ti adiei a morte.


segunda-feira, 28 de maio de 2018

Mulheres da Terra


Amam como quem ama no adeus

E choram nos orvalhos da madruga.

deusas ressuscitadas

Do cansaço, do desespero, da razão

Da beleza selvagem e da paixão dolorosa

Dos filhos paridos no medo do mundo

Elas,

Afrodites da terra e do mar

Dançantes em obscuros desejos

Por vós a poesia canta



quarta-feira, 21 de março de 2018

O Poema

Ilha da Madeira


E faz-se as palavras ao longo do poema
Quando o poeta tenta colorir de paz
As mais negras formas da vida
Trazendo a luz nas sombras das linhas

É o poema que vestido de poesia
Me envolve na homenagem à vida
Ainda que não raras vezes vestida de luto
Me entrego à beleza dessa harmonia

O poema é aqui na minha alma
Triste ou alegre em palavras incertas
Na busca do amor feito poesia
Na busca da vida esculpida em palavras

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Rostos

Fanal-Madeira - Foto de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/

Eram rostos reflectidos nas águas das chuvas, belos, magros, com ou sem rugas, queimados pelos dias de intenso calor e geadas geladas.

Rostos na aldeia em dias de luz, perfeitos, com a sabedoria de quem vive ao sabor das estações sem nada pedir.

Faces de vidas, trazidas em cada ruga. Sorrisos alegres que se pretendiam tristes, olhares longínquos que se pretendiam próximos, verdes, transparentes ou baços, olhares de água, com ou sem expressão, com ou sem amor.


Eram rostos humanos de quem vive na mais genuína forma. 


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Viagem




Funchal


Mesmo caminhando

 já no cansaço do tempo

onde desgastei forças e sonhos

onde me iludi nas tramas encenadas

e deixei o coração lá longe

Mesmo assim,

para além da curva

pode haver o arco-íris