quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Humano em construção



Saía do umbral da nostalgia de encontro à luz do ventre onde me via

Construía nas ondas inquietas pedaços de mim

Sem que os perdesse nas marés vivas de um setembro morno

Caminhava, caminhava contando os passos

Sem pensar no que perdia, sem sentir o que mentia

Que mais poderei ver nesse destino se não um humano em construção



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Minha aldeia


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Aquela aldeia no norte da ilha mercê de marés caprichosas e montanhas ventosas, invadia-me a alma com uma nostalgia misteriosa ensinando-me a ler a poesia dos homens.

O murmulhar das árvores nas noites invernosas levavam-me para a rua em busca da lua, numa tentativa de fuga às velhas profecias das bruxas de então, e eu recebia a dose certa de solidão e amor, de tristeza e paz, num ritual que me conduzia à compreensão de mim.

Deixei um pedaço de mim no calhau das lapas e segui pelas ruas e cruzamentos. Todos me conduziram ao mesmo ponto: a certeza de ter vivido uma poesia por mim inventada, numa aldeia esquecida no norte da ilha.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Espera


Fotografia de https://www.facebook.com/#!/JCarvalhoPhotography


 
Talvez se eu esperar o tempo parar

Tu chegues com o sol no olhar

E eu exista na tua pele

Ainda que enrugada por marcas de vida


Mas,

 todos os dias na hora marcada

Procuro respostas de ti na areia

E deito-me despida, vazia, caída

Alheia que estou à próxima maré



Lancei raízes pelo oceano

E só para ti nasceram as rosas



 
 
 

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Estações

Fotografia de https://www.facebook.com/#!/JCarvalhoPhotography




Pregada na estação

A viuvez trazida no som dos carris
A saudade dorida na lenta espera

E esse comboio que não te encontra nas estações perdidas

Herói errante
Caminhante da vida

Desperta-me a melodia longínqua de um acordeão

Trazendo-me um velho tango

Numa dança mesclada de tristeza e paixão

No vazio entre um e outro comboio

Surpreendi a lua na estação vazia

E fugi, para curar a dor



quarta-feira, 28 de maio de 2014

AMOR




Porque um dia serei pó na brisa salgada

Que me leve o vento

na primavera,

Que ouçam os pássaros

o meu canto,

Entoem os sinos

a ave maria,

E eu nascerei desse pó salgado

Sorrirei nas flores do teu jardim
Falarei nas ondas da tua praia

E se um dia cantarem as sereias

Saberás que vivo eternamente


domingo, 4 de maio de 2014

Mãe



Eu podia morar nas asas dos falcões

Viver o êxtase das aves solitárias

Rumo ao inevitável caminho do céu

Onde te encontraria, mãe.


Eu podia viver o sol purpura entrando na noite

E sentir o brando silêncio trazido pela brisa

No sono da morte deliciosamente misteriosa

Onde te encantaste um dia.


Quem sabe ouvir os grilos entoando a melodia

Que me cantaste num outro tempo

E pedir ao vento que te devolva

Desse secreto e constante sono.


Mas, vou viver a tua morte, mãe

E conquistar a tua paz sem chorar a noite




terça-feira, 15 de abril de 2014

Desencontros

Fotografia de https://www.facebook.com/#!/JCarvalhoPhotography





Esta arte de perder-me nos cruzamentos

É a arte do desencontro

Desencontrei-me no cruzamento de vidas

Mesmo quando te encontrei na berma de um sonho
Carente que estava de sentir


Voltei ao labirinto perdendo-me entre a morte e a vida

Inseparável que estava da solidão


Talvez cure as asas feridas

E me encontre desses desencontros

Nos meus castelos de mar











sexta-feira, 4 de abril de 2014

Vigília

Foto de Alvega Trindade




Navego de lua em lua
Fugindo ou não da futilidade
Procuro a melhor versão de mim
Calo a alma numa liturgia
Que me embala num sono inquieto
E esconde as mazelas da devoção cega
 
Na vigília, vivo da fome de mar
Companheira da ilha, cúmplice do vulcão


 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Não fosse essa poesia...




O remorso fundido na saudade

Vindo de uma morte que de morte viveu

O remorso de ter-te vivido em mim

Sem um adeus que só Deus me alivia


Queria eu morrer em cada lugar

E nascer em cada amanhecer 


Na terra e no mar

Necessários à dor


Ainda que nas tuas cinzas semeie gardénias

Faço-te criação da saudade

Enrosco-me na escravidão do remorso

Não fosse essa poesia que me recordas...





quinta-feira, 13 de março de 2014

Deixei as palavras



Deixei as palavras obscenamente silenciosas
Lancei-as no vácuo das almas sombrias

E escrevi solidão e silêncio

Num consolo fictício 


Não deixei as palavras falarem de mim

Caíram no papel gélido, procurando vida

Morreram, nasceram, partiram

Indiferentes que estavam ao pensamento


Eram só palavras

levando pedaços de mim

Sem nome nem rosto

Deixei as palavras à beira do porto

No adeus da próxima maré