sexta-feira, 8 de maio de 2020

Sem raízes






Não tenho raízes.

Sou filha da chuva, do mar e da terra.

Sou do todo e do nada,

De onde emana perfume de mar, ~
ou terra molhada com nuances de jasmim

Da floresta negra com danças de deuses,

das estrelas de prata, das flores da lua

Não tenho raízes, amarras, correntes….

sou leve, leve… leve…

Sou brisa ténue, sou folhas de outono correndo no rio

boiando sem fim…entregue ao todo

Vivendo sem fim

Sem raízes... e vivendo, vivendo



quarta-feira, 4 de março de 2020

Noite



Cai o pano escuro,
lentamente,
entre o ocaso e a prata da lua
como se a vida se esfumasse numa bruma morna
e o tempo,
aquele tempo que desmascara tudo,
 me abrisse os palcos.
Cai a luz,
e nessa sombra serena onde me encontro comigo
chega a beleza da solidão disfarçada.
Uso o tempo num balançar de sonhos lúcidos
com máscaras e exaustos contornos
caindo no epicentro da noite.


quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Fé sem templos






Vives sem rede, porque sabes que se caíres cais nas asas de um anjo.
Caminhas com um mapa em branco, onde a indicação é te dada no momento da chegada e segues o teu caminho, porque esse é apenas e só o teu caminho.
Esta é a fé que tanto ouves falar e que sentes exterior a ti.
Esperas na estação e sabes que quando for a tua vez o comboio chegará e tu decidirás se embarcas ou não, se esperas o próximo… ou não.
E mais uma vez fazes o teu caminho, porque qualquer que ele seja levar-te-á sempre às asas de um anjo.
Esta é a tua fé, aquela que julgas não sentir por não precisares de templos.
A tua fé sem templos.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Aquele Natal





Volta aquela nostalgia do Natal em família onde a beleza estava nos sonhos e na imaginação sem fronteiras, sem pressas nem ambições, como se o amor se eternizasse e nada mais importasse e de nada mais precisasses para tocar a felicidade.
Era assim aquele Natal, com aromas suaves e brilho nos olhares, crianças que traziam o divino, transbordando abundância de tudo, mesmo sem o nada de agora.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Mulheres



Amam como quem ama no adeus e choram nos orvalhos da madruga. Deusas ressuscitadas do cansaço, do desespero, da razão. Da beleza selvagem, da paixão dolorosa. Dos filhos paridos no medo do mundo, Afrodites da terra e do mar onde dançam em obscuros desejos.
Por vós tocam os sinos nos campanários, elevam-se as vozes dos templos, ecoam o pranto dos poetas.
Por vós a vida pulsa.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Para ti, que estás para além do céu







E o meu coração encontra-te, na serenidade do mar ou na fúria do vulcão, na brisa morna com cheiro a maresia ou no gosto das algas.

O meu coração encontra-te no último suspiro da terra, no último raio da luz do sol, na luz cândida das fases lunares. E tudo fica mais belo, como se descesse a vibração do céu e eu encontrasse o caminho de casa.

Mas quando te perco, é porque os meus olhos não estão prontos para te ver, e essa será a noite escura da alma, ainda que continue a amar-te.


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

AMOR







Quando a minha alma acorda do sono nocturno, e tudo não passou de sombras ilusórias, por vezes belas, por vezes menos belas, mas nunca reais.

Seria o fim do deslumbramento do ego, onde tudo deveria ser segundo as suas ordens, como se essa fosse a verdadeira sabedoria.

É o fim do sono da alma, é o despertar do amor, aquele amor que só as crianças conhecem, que só os animais sentem, que todo e qualquer Deus é.

Assim acordou a minha alma, por tempo indeterminado.




segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Pai





Pai, o tempo nos aproxima
No sonho que me falas sem voz,
E não falarei das palavras sem som
Sentirei apenas a tua luz na noite

E esse acetinado crepúsculo onde te vejo sorrir
Vindo de um eterno tempo que um dia nos unirá
Mistura-te na memória de uma vida
Onde agora a luz te molda a sombra

E semeio rosas no caminho que te leva
Onde aguardo o retorno das aves que te cantam.
Feliz aniversário

Amo-te

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Noite da alma





Na noite escura não reconheci o caminho
Como se a cegueira da visão me bloqueasse os sentidos
E as emoções não reconhecessem as cores.
Fechei o fluxo do amor e caminhei na berma do lago
Acompanhada da sombra nas águas vestidas de prata.

Reconheci o meu nome assim
vulnerável
Seria a ferida na minha essência
na prisão da minha liberdade.

Talvez se criar uma ponte
 que me leve à melodia longínqua da próxima primavera,
Eu consiga encontrar-me em ti.
E acenda uma luz na noite da alma.

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Eu comigo






Foste tu a luz, naquela que seria a última caminhada pelo mundo. Como se de repente, toda esta parafernália de emoções se esvoaçasse no universo e se fizesse a bonança depois da tempestade e se invadisse de calma a tormenta.
Despi-me de trapos e mágoas, juntei cacos e migalhas, caminhei passo a passo sentindo a virgindade da terra e a nudez do tempo. Finalmente eu comigo.
Não fosse essa luz, com a particularidade de ser a tua, e seria eu sem mim, mergulhada na imensidão de nada.