segunda-feira, 26 de março de 2012

ESPELHO

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Vejo nesse espelho a meretriz das docas
Nesse corpo que sobreviveu ao abismo
Com sinais de estupido divertimento

Nele se fez portos de abrigo
De marinheiros perdidos em tempestades
Fazendo esta  fria estátua de pele
Moldar-se na contraluz do tempo

Nele reflete os meus olhos sem luz
Numa mascara de cal pincelada pela maresia

segunda-feira, 19 de março de 2012

Pai







Quero escrever sobre ti, pai, talvez sobre a saudade escondida, talvez sobre a resignação de apenas te recordar


Quero escrever sobre ti, pai, talvez sobre esta tristeza camuflada de querer esconder um remorso injustificado


Talvez escrever o que nunca escrevi, talvez chorar nas palavras,…não sei


Quero escrever para ti…talvez só para te dizer que vives em cada palavra que ainda escreverei sobre ti…


sábado, 17 de março de 2012

SENTIR



https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography



É um estado de Ser e de sentir…
Sentir o paraíso inexpugnável
E caminhar em direcção a um Deus maior

É a sensação de ligação ao todo
Ligação a uma energia pura e una,
E nada é separado de nada

A unicidade é manifesta
No sentir a terra, no sentir o céu
No sentir a cor púrpura do sol
No sentir a mente dos homens

Mergulhada na profunda ilusão
Da separação aparente
É levantar o véu que cobre a visão
E deixar o mundo encantado das ilusões

É sair do sonho insano das cegueiras
E escolher a vida para além da vida
É sair do sonho passageiro do mundo finito
E mergulhar no oceano infinito da alma
E sentir, sentir…







quarta-feira, 7 de março de 2012

MULHER



Mulher, deusa do amor neutro,
Vénus surgida na concha de madrepérola
Gerada pelas espumas brancas do mar
Meretriz do destino efémero

Deusa do erotismo e da beleza
Divindade da reprodução  
Por ti os poetas choram
Por ti os artistas criam

Mulher de olhos distantes
De corpo esculpido em areias movediças
Mulher de homens insaciados

Por ti os filhos nascem e as flores brotam
Por ti Gaia chora…


Mulher, que alumias o altar dos homens...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

CONFISSÃO





 

 



Doem-me os joelhos neste altar de pedra
Onde deixo de braços abertos e frios
Uma existência turvada pela neblina da incerteza
Da existência de um Deus maior que o remorso

Confesso ser filha de um deus incerto
Neste altar de pedra e dor embutida
Sinto a culpa da consciência escrava
Num existir de remorso reconhecido

Prostrada na pedra fria deste culto
Confesso um místico deleite feito de aventura
E entrego aqui num acto de contrição
Pecados feitos na castidade do prazer
 
Mas, doem-me os joelhos neste altar de pedra...

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

VISÃO DA LIBERDADE

As cortinas correm abrindo um palco gigante onde seres vivos contracenam, representando tão bem que confundem a personagem com o actor.
Esta é a minha visão do alto do Universo, sentada na grande lua.

E é dali que vejo a minha outra parte no palco da terra.
Seres humanos tentando atingir uma evolução inconsciente,
Tentando representar ao máximo as peças que se propuseram.
Representando tão bem que se esquecem de quem são.

E sentada na lua vou recordando a minha entidade
A libertação chega suave e lentamente
A libertação da densidade e da personagem que escolhi
A libertação das amarras do ego, das limitações do humano
A libertação dos medos, do medo da luz, do medo da essência,
A libertação do medo de Deus, do medo do Amor, do medo da Verdade

Agora consigo ver o palco gigante que é o Planeta Terra
Agora consigo ver todos os seres que contracenam comigo
Vejo-os a actuar, a cumprir um guião gigante
Vejo-os escondidos atrás das máscaras, sem coragem de tirá-las

Mas lenta e progressivamente a peça chega ao fim
A evolução a que nos propusemos é atingida
Conseguimos nos reencontrar,
Preparo-me para descer,

Venho livre de volta à minha personagem
Tão livre que altero o meu guião,
Nesse guião renasço num novo acto
Nesse guião sinto a liberdade

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Procuro-te



Procuro-te na neblina de um qualquer amanhecer
Nas tabernas da vida,  e nos barcos do porto.

Procuro-te no rosto dos homens
Entre a multidão das multidões.
Procuro-te nas orgias da noite
E nos Carnavais da vida.

Porque fazes parte da parte amputada de mim
Procuro-te…

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Noite

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E foi no silêncio daquela noite prateada,
Quando o sono se fez distante
Que me embrenhei nos mistérios da noite
E calei as vozes da minha mente

Ouvia o respirar das árvores num leve sono,
O murmúrio do mar à luz das estrelas
Sombras se movimentando num viver tranquilo.
E sentia as vidas despidas de máscaras

E foi nesse murmúrio com o silêncio
Que fechei as cortinas do palco
E com a mente deserta mergulhei
Na essência luminosamente escura

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

SAUDADE

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Hoje senti o aroma das flores adormecidas
Que me trouxe a saudade de outras primaveras.

Hoje senti saudade, aquela que brota
de um qualquer sítio à muito adormecida

Senti a melancolia daquela saudade
Que sepultada nos agrestes invernos
Ressuscita, renascendo nas fragrâncias do roseiral.

E nas recordações deixei-me saudosa viver
Deixando crescer no meu peito, a rosa brava da nostalgia



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ENCONTREI-TE



Seguias a estrada de terra batida

Uma estrada com placa dizendo nenhures

E nas tabernas do caminho te saciavas

Afogando emoções adormecidas

Descobri-te despido de luz

Vestido de sombras sombrias,

Acompanhado de criaturas concebidas

Pela cegueira conturbada da mente

E encontrei-te curvado ao sol

Entregue e rendido ao morno calor

E morrendo lentamente caminhaste para mim

Passos lentos carregados de dor

E eu recolhi-te…

Recolhi-te dentro de mim


E Amei-te….

Amei-te naquela hora mais escura

A hora que antecede o nascer do sol

A hora que antecede a aurora