sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Na minha aldeia

Foto de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/?fref=ts (Norte da Madeira)


Quando o ocaso descia na aldeia e a montanha se iluminava de mornos raios laranja, chamando os coelhos para fora das tocas, voltavam para casa os filhos da terra. Era o sol dos coelhos à hora das ave-marias cantadas na igreja.

As mulheres nas soleiras das portas, aqueciam seus corpos na hora do penteado das feiticeiras, esperando seus homens que rasgando caminho corriam para seus colos.

Caía o mais severo silêncio enquanto esmoreciam os últimos raios de sol e cada instante era festejado na eternidade do orgasmo.


Quando o frio respondia da montanha e os coelhos recolhiam às tocas, deixavam estes homens as suas mulheres, prenhas de tristeza e saudade e tudo se transformava em tempo até o próximo sol.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

A ti

Foto de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/
Disseste um dia que serias céu e mar
E que eu seria o falcão de penas azuis
Esculpido no céu
Também disseste que me amarias,
mesmo lá do alto,
mesmo  durante o silencio do universo
Mesmo durante a saudade da partida
Mesmo durante a morte

Sabias bem amar-me
Porque sabias que o céu te acolheria
Sem que eu conseguisse acreditar na perda
Da vida talvez, do amor nunca

Quando a chuva passar
Ver-me-ás cruzar o céu
Na dança do tempo e do vento

Aquele falcão de penas azuis
A tua ave azul.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Vejo-te

Fotografia de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/



O que queres que eu saiba hoje?
Do pássaro azul que me visita?
Do sol morno do alvorecer que me toca a pele?
Do vento fresco do norte que me traz a maresia das marés?

Vem mostrar-te nesta neblina que por vezes me encontro
Ensina-me a ver-te quando os meus olhos cegam na escuridão
E eu aprenderei a linguagem do pássaro azul
Voarei livre da escravidão

E tu virás nas marés altas,
Com o perfume das algas.



terça-feira, 6 de outubro de 2015

Era a tua voz


https://www.facebook.com/joanitacarvalho?fref=ts


Reconheci a tua voz, eco de tempos longínquos. Eras tu, belo, sábio, firme.

Era a tua voz, aquela que ao longo de vidas amei e venerei, que nas noites de densa escuridão me sussurrava a música dos anjos. Sim, mais uma vez ouvi-te, no silêncio, qual eco no firmamento.

Senti-te na leveza do vento marítimo, no perfume das algas, o teu toque subtil e doce, para que não me esquecesse (outra vez) que estavas aqui, que sempre estiveste.

E mais uma vez ouvi a tua voz, aquela que me aqueceu a alma arrefecida pelo esquecimento.

Obrigada.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Velhice

Fotografia de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography

Sou formas de uma vida
Olha-me,
rugas do tempo e do vento
Monta os destroços das muitas marés
Constrói-me as asas cansadas do mundo

Salva-me da morte por esquecimento
Perdoa-me
 as rugas da vida

Assim viverei eternamente
Na terra e no mar
Longe da indiferença das sombras


quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Fronteiras


Veneza


Porque nem sempre consigo tirar as fronteiras das palavras, quando sinto aquela vontade vinda de um submundo desconhecido, de traduzir em palavras o que nem sempre é traduzível.  

Esse sentir para além dos horizontes da inquietação, que nasce e não raras vezes morre no mesmo momento, por falta de coragem.

Esse sentir a epopeia da vida que me faz escrever aquela poesia, que penso ser poesia porque está para além da lógica das coisas, e depois me faz calar com medo da incompreensão dos homens.

Na verdade, quero tirar as fronteiras das palavras.


terça-feira, 28 de julho de 2015




Sento-me no muro da praça azul e por entre as árvores da avenida, entre a estrada e o mar observo a vida passar. São pessoas anónimas (ou não), seguindo pelo asfalto escaldante num rodopio frenético que as faz transpirar cansaço, esquecidas que estão de viver.


E nesse observar desligado dou por mim recolhida da vida, presente no marasmo das horas que o verão da ilha me leva.

Vejo pessoas passar, silenciosas e sós.

E não existe nada, para além de mim a sós comigo.

    

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Palavras



Montenegro

Gosto da simplicidade,

da genuína simplicidade das palavras,

aquelas que até a natureza consegue traduzir,

aquelas que qualquer coração puro consegue ler
 

Gosto da simplicidade autêntica das palavras,

aquelas sem ego e vaidade,

Onde o vocabulário soa melodicamente

E a beleza toca-nos a pele

Qual arrepio em dia de calor


Sinto, lenta e calmamente,

Essa energia que me transporta

 para a magia de outros mundos

assim, simplesmente

Em palavras que sempre direi

 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Saudade

Foto de https://www.facebook.com/#!/JCarvalhoPhotography?fref=ts




Se eu pudesse trazer-te do ocaso

daquela tarde em que sorriste

trazendo o gosta das amoras.
 

Se eu pudesse voltar a amar-te

numa qualquer primavera com perfume de jasmim.
 

Seria talvez a forma

de guardar nas estrelas o teu sorriso de prata,

e mesmo que o outono um dia te levasse,

eu teria o firmamento para te recordar.

 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Acredito


Tocam os sinos na torre da igreja sobranceira ao mar. Clamam ave-marias nos fins de tarde que chamando as viúvas da terra, entregues ao medo da cruz.

Mas foi assim, num fim de tarde ao som dos sinos com o mar perfumado de sargaço rebentando ondas no ilhéu preto, que acreditei na vida de tudo, seja das plantas, do mar, das estrelas, até do rochedo preto com forma de leão, plantado no mar frente à igreja qual guardião da costa.

E continuei a acreditar, mesmo durante as iras de Posídon, em que desaparecias no mar nas noites de luas de prata e eu, plantada no muro da igreja te esperava, ouvindo a tua voz vinda de um buzio, que voltarias a viver.

Sendo eu dona legítima de tudo o que sinto, ainda acredito que tudo o que amo vive comigo para sempre.




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