quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Diz-me onde estou, pai





Diz-me tu, o que o meu pensamento vomita,
Fecundando as emoções ainda virgens,
Vestindo um ego repleto de medo.


Diz-me, pai, o que o meu coração não quer calar
E o meu cansaço não deixa ver
Neste mundo
Que aguarda o retorno dos pássaros.


Nas entrelinhas leio a explosão da terra,
Ferida,
Onde lágrimas de seiva escorrem,
Mudando a paisagem numa gestação de ironias.


Diz-me pai, a saída da treva,


Mostra-nos
As nascentes da luz


Diz-me onde estou…pai


domingo, 14 de outubro de 2012

Noite





Nesse escuro luminoso,
 vestido de prata,
Sinto-te chegando,
confundido nas sombras dos cedros,
Dançando
 ao som da melodia longínqua
  de uma bruxa perdida.

Sinto-te tão perto,
 nessa noite mística perdida no profano,
Que até o silêncio do vampiro
 canta a balada da luz
E a dança das estrelas cria rosas no céu,
E vejo-te
Na névoa de luz que te molda o rosto

E a noite canta o hino dos búzios 


quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Esse mar






Procurei-me em ti,
 esculpi-me na tua pele,
criei-me no teu olhar
E respirei o teu ar de rosas,
 num sorriso rasgado de sol
 Procurei-me tanto em ti,
 que num viver orgástico esqueci de mim,
Entregando-me num vazio de sonhos,
 que o riso das baleias me despertou,
E despertou-me esse  mar,
 na melodia das marés
Que me acolheu como sendo seu
E onde,
 num qualquer dia perfumado de sal
me encontrei

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Outono




Estás sentado na tua cadeira onde te despedes do tempo, esse tempo que o Outono leva nos ventos do norte.

Dessa cadeira onde a melancolia te balouça, os sinos te despertam para as ave-marias, onde a tua alma se recolhe num misto de remorso e paz, e rezas que o falcão te leve, numa dessas alvoradas trajadas de cristais.

As folhas caem naturalmente, e esse Outono te toca, quando fechas os olhos e te entregas, numa metamorfose que não deixa morrer.

domingo, 23 de setembro de 2012

A Dança





Quero dançar despida de trapos, a mente aliviada de farrapos, seguir ao ritmo das ninfas, beber a sabedoria dos elfos, numa floresta onde só o silêncio me ouve.
Quero dançar ao som das ondas, no ritmo do vento que me leva em busca do azul, nesse universo índigo onde desaparecem as palavras e sinto a embriaguez da luz, que me veste de estrelas, e perfuma de maresia à luz da lua.
Olho-me na pedra de jade, e danço com os espíritos ondulantes, o bailado dos astros, que me levam para o essencial do mundo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Em busca da beleza





Procurei a beleza nos rostos maltratados,
Nos olhos marcados pela desesperança
De quem olha o ocaso como por acaso

Procurei a beleza na indiferença das gentes
Que contempla o extermínio da mente
De uma humanidade que morre de tudo

Procurei na espécie humana
Aquela beleza que
 apesar da banalização da tristeza,
da fome e da guerra,
vive numa humanidade encantada

Procurei essa, que vive no amor

 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Sem Mudança










Sinto-me igual, sem a mudança latente dos tempos,  embebida da vã sabedoria dos homens que me provoca um orgasmo mental, e da fútil sensação de beleza falsa,  neste pedaço de mundo que não pedi.

Talvez sinta apenas aquela leve melancolia, justificada pelos fins de tarde,  apesar de cúmplice da minha existência.

Sinto-me igual a mim, menos céptica talvez, de tanto ver a metamorfose que faz nascer as borboletas.

Será talvez por não pedir mais pedaços de mundo,  que me acomodo na paz da minha essência,  e tento desse lugar, apagar o meu nome?

Quem sabe se dormir, no meu corpo sem idade...

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Basta-me olhar a lua








 

Pudesse eu sentir-te no meu peito recolhido

Nas noites que te bebi até a lua te acolher
Pudesse eu levar-te, nos ciclos das marés
Onde a algas tombam sem a luz da prata e eu te aguardo
Envelhecendo a lua de tanto olhar

Pudesse eu sentir-te, no meu corpo feito teu
Sentir-te no meu sangue, nascendo nas alvoradas
E sufocar-me em ti nesse amar além do tempo

Pudesse eu amar-te, morrendo em ti
Mas basta-me olhar a lua

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Sorriso







Esse sorriso pintado é mais que pigmento em forma líquida
desenhado num quadro, onde a mistura de cores me toca,
insinuando o frio, o calor, a sombra, a luz
numa profundidade sentida muito para além dessa tela

Esse sorriso esculpido a golpes de cinzel, lavrado em pedra
soltado das lascas caídas na terra
É a tua criação, o retrato da liberdade
O sorriso de deus


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Quero paz






Quero paz, aquela paz que ilumina os homens e os torna o primeiro sol do planeta
Aquela paz que faz de um povo as velas brancas do mundo
Aquela que apaga os ventos da ira
Que poliniza um mundo de sombras voláteis
E executa numa sinfonia a ode à liberdade

Quero essa paz que se veste da brancura dos lírios
E nas gotas cristalinas do orvalho, chora o amor e a liberdade