domingo, 29 de outubro de 2017

Alheamento



Por vezes vem essa necessidade de se alhear da terra, da vida, das mentiras e verdades.
Por vezes vem essa necessidade de mergulhar no nada, como se o nada fosse tudo e do tudo se fizesse nada, como se a vida e a morte fosse só uma e eu fosse um só com o Universo.
E eu sou, almas de várias existências, de longos e inúmeros carnavais, sou pó e carne, meretriz angelical, sou a encarnação da luz e das sombras no alheamento da dualidade.


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Noites



Despedi-me dessa noite branca

Onde tudo se movia numa dança erótica

De ondas azuis com reflexos de luz

Onde a noite nos uniu no sono e no sonho

Onde o amor nos eternizou para além da carne


Despedi-me assim, sem dor e sem lágrimas

Num sentir de tudo e de nada

No vazio selvagem da tua partida


Porque, sabia eu


Voltarias outra noite,

e outra...e outra

Trazendo de volta esse pedaço de mim

Entre tantas outras luas




sexta-feira, 30 de junho de 2017

SONHO

Fanal - Madeira
De repente do sonho nasceu a luz, aquela que me fez descer à terra e viver o meu renascer.
De repente, no primeiro suspiro da vida que me deixou viver, eu voltei, feliz que estava de sentir o teu calor, ou o sussurrar da floresta mesmo em dias sem sol, ou os teus devas mágicos cantando a paz, ou mesmo as gotas de cristal em dias de tempestade que me limpavam a alma da escuridão.

E eu despertava com o cheiro dos lírios no lento entardecer do sonho.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ao Espírito da Terra

Foto de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/?pnref=lhc




Ainda que nem sempre caminhe descalça
e não sinta o teu pulsar,
ainda que viva em ti de forma tão distraída
que não veja as tuas luas,
mesmo nas noites em que te fazes presente
de forma tão prateada.


Ainda que me sinta tão distante
quando a melancolia me invade
Mesmo assim,
nada te esconde de mim.


Basta a tua leve brisa
que me chega com cheiro de algas
ou o eco das tuas tempestades
com o perfume das chuvas do Norte,
ou mesmo a tua melodia
quando cantas nos trovões


Nada te esconde de mim
E eu desperto carinhosamente


Desperto para o teu amor




terça-feira, 9 de maio de 2017

Apetece-me amar



Hoje apetece-me amar

Talvez sentir amar mais do que falar

Apetece-me calar a razão fria

e entregar-me ao amor

Eternizar o orgasmo

mesmo no sono inconstante


E amar-te

mesmo no fim do cansaço

Hoje, agora, apetece-me amar

Mesmo depois do ontem

Mesmo sem o amanhã

Até que nasçam lírios no céu



terça-feira, 18 de abril de 2017

Seria o mar



Seria o canto das sereias entoando o teu tango, que me fez recolher em ti o meu medo de amar.

Seria o mar que trouxe o teu fado e me encantou no teu mundo



terça-feira, 4 de abril de 2017

Desencontros






Há uma sabedoria divina na solidão, onde me reencontro vezes sem conta, ainda que nos cruzamentos cultive a arte do desencontro.
Esta forma de amar que me fere as asas e me deixa postada em tudo o que é condição, como se um dia o silêncio falasse e eu te aceitasse mesmo assim, desencontrado de mim.
Mas, talvez se deixares o teu sorriso para mim...


domingo, 19 de março de 2017

Pai



Quero escrever sobre ti, pai, talvez sobre a saudade escondida, talvez sobre a resignação de apenas te recordar


Quero escrever sobre ti, pai, talvez sobre esta tristeza camuflada de querer esconder um remorso injustificado


Talvez escrever o que nunca escrevi, talvez chorar nas palavras,…não sei


Quero escrever para ti…talvez só para te dizer que vives em cada palavra que ainda escreverei sobre ti…

sábado, 18 de março de 2017

A tua amoreira hoje deu flor, Pai




Quando saboreávamos o gosto das amoras

Disseste que serias essa amoreira

Enraizada na terra com folhas no céu

Que daria flor no inverno

E rosas no verão



Sabias viver apesar da proximidade do fim

Vivias para mim, para as tardes na amoreira

E eu chorava silenciosamente a dor

A minha dor, a tua dor, a dor do fim



A tua amoreira hoje deu flor

E eu amo-te silenciosamente



segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Silêncio





Há uma beleza inata nas palavras do silêncio,
como se de repente eu não precisasse de nada
se não desta brisa salgada que me enche o peito
e me faz esquecer que existem palavras

E este silêncio

que faz de mim um poeta vazio
Refúgio incondicional de tudo o que vivo
Que me leva à condição de ser
Sem saber aquilo que sou

Amo a beleza do silêncio
A ignorância do vazio



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Carnaval



Sambavam, genuinamente descalços, embrenhados na melancolia dos tambores ao ritmo orgásmico de uma dança despida de pudores. Mergulhavam no esquecimento do que eram, bebiam do sonho um dia castrado, e dançavam, uma dança quase agonizante, num misto de prazer e dor, de quem ama até ao vazio da morte.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Morte

Foto de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/?fref=ts



Um dia a morte chega,

silenciosa e calma como a noite

Celebrando a beleza da vida,

Aquela que devias viver


Deixaste o amor escondido

na futilidade da posse

Deixaste a vida perdida

nas sombras do medo


Deixaste a primavera partir

Sem que nela colhesses as flores.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Destino






Era só agora, e tudo acontecia agora, sem amanhã, sem destino profetizado pelas bruxas. Eram felizes assim, só conhecendo o hoje. Crianças de pés descalços e sol no olhar, sem grades nem medos, com a inocente coragem do amor ainda virgem.
Riam como se não houvesse destino, dançavam nas chuvas mornas e beijavam nas noites mais belas do mundo, sem dor e sem saudade.
Eram crianças sem destino, de pés descalços e sol no olhar.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Fuga



Não posso fugir de mim, ainda que ame com medo de amar e ressuscite o meu fantasma moribundo. Liberto a fenix de penas douradas e desenho palavras de vento, sempre que pinto o teu rosto na areia.

Um dia, deixarei a minha nudez reflectida na beira do porto, e vestir-me-ei de mar, apenas e só de mar, para poder te amar.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

É Natal



É Natal, e nós, deuses mergulhados numa teimosa amnésia

Só agora acendemos luzes nos templos negros

Como se o agora mergulhasse no eterno, num circulo sem vazio.

Mas, fomos feitos assim, com amor, para o amor

E sim, pode ser por toda a vida, por toda a morte

Por todos os Natais sem Natais.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Gaia

Foto de https://www.facebook.com/JCarvalhoPhotography/?fref=ts
Eu amo todas as coisas que sinto, sensações vindas de um tempo longínquo que nunca deixei de amar, sem mesmo saber. Algo que se mistura na terra e na pele, que me traz a nostalgia de uma antiga existência, que me abre o coração para os devas da floresta, para as sereias dos oceanos, que me faz procurar o canto das baleias.

Eu amo o espírito entranhado nas árvores, a linguagem dos ventos e das tempestades, a ternura da lua e o uivo dos lobos.

E nunca deixei de amar, sem mesmo saber.


Nunca deixei de viver, sem mesmo saber, tantas e tantas vidas em ti, Gaia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Silêncio



Porque o silêncio me envolve
Em palavras que não escuto
Em sons que me escondem de mim
Na nudez da verdade

Porque o silêncio me despe
Nas fronteiras do ruído da mente
Me estrangula no sufoco da voz
Me desnuda de mim

Porque eu sou
A nudez do silêncio


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A dança




Durante o sono das estrelas
Entoavas o eco do amor
Dançavas a música do mar
Acarinhavas o espírito da terra

E quando mergulhavas na embriaguez do silêncio
Da noite vadia, caída e fria
Ouvias ao longe a música dos índios
E dançavas a linguagem da selva

Dançavas, assim, sem condições
Como o bailado na noite das arpas
Como a música na noite dos pássaros

E Amavas, assim
Dançando


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Saudade



Quando desenhei a saudade em folhas brancas
E soltei-as no dia dos ventos gélidos do norte
pensei
seria talvez o fim do sentir a dor da ausência

Quando no horizonte desapareceram as folhas
Rascunhadas daquela saudade cravada nas lembranças
Senti a tua não existência
Daquela que seria a mais bela memória

Desprendi a saudade em folhas brancas
Deixei que as marés as levassem
E o meu coração se acomodasse
No fim do adeus



terça-feira, 16 de agosto de 2016

Renascer




Se nem os vulcões te deixaram sem verde,

nem as chuvas te afogaram no mar.

Se nem os ventos te levaram a luz

e as lágrimas apagaram a coragem


Vamos plantar o verde da ilha

Vamos renascer das cinzas o perfume da terra

E beber nas tuas fontes a esperança