sexta-feira, 4 de abril de 2014

Vigília

Foto de Alvega Trindade




Navego de lua em lua
Fugindo ou não da futilidade
Procuro a melhor versão de mim
Calo a alma numa liturgia
Que me embala num sono inquieto
E esconde as mazelas da devoção cega
 
Na vigília, vivo da fome de mar
Companheira da ilha, cúmplice do vulcão


 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Não fosse essa poesia...




O remorso fundido na saudade

Vindo de uma morte que de morte viveu

O remorso de ter-te vivido em mim

Sem um adeus que só Deus me alivia


Queria eu morrer em cada lugar

E nascer em cada amanhecer 


Na terra e no mar

Necessários à dor


Ainda que nas tuas cinzas semeie gardénias

Faço-te criação da saudade

Enrosco-me na escravidão do remorso

Não fosse essa poesia que me recordas...





quinta-feira, 13 de março de 2014

Deixei as palavras



Deixei as palavras obscenamente silenciosas
Lancei-as no vácuo das almas sombrias

E escrevi solidão e silêncio

Num consolo fictício 


Não deixei as palavras falarem de mim

Caíram no papel gélido, procurando vida

Morreram, nasceram, partiram

Indiferentes que estavam ao pensamento


Eram só palavras

levando pedaços de mim

Sem nome nem rosto

Deixei as palavras à beira do porto

No adeus da próxima maré


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Destino





Fotografia de Joana Carvalho


Caminhámos

Pelas sombras impostas de uma vida bifurcada no pó da estrada.

Sombras de um destino escrito nas estrelas

Que a revolta da terra te crucificou

Sem que os signos do universo te conseguissem salvar


Se nem nas mais fervorosas orações inspiradas nas tormentas

Os deuses me ouviram devolvendo-te das sombras,

Se nem no momento eternizado pela fadiga do orgasmo

Saíste das trevas de uma noite sem som


O meu destino se deita no teu

Num existir sem leito,

Embalado no silêncio dos búzios 





sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Minha história





Com cal e sal construí a casa da minha história

Com sol e lua pintei os anos da vida

Criei o meu conto, o meu sono, o meu lar

Nesse era uma vez que continua 


Colori a ficção quando o dia nascia

Manchei a verdade quando via palácios

Deixei que a chuva me crivasse de lágrimas

Deixando-me esculpida na terra molhada


E eu que me supunha tão pobre

Deixei o amor rabiscar o meu conto

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Hoje quero só sossego

Fotografia de https://www.facebook.com/#!/JCarvalhoPhotography





Hoje quero só sossego.

Quem disse que quero ser feliz?

Quero apenas ser,

e nesse querer ser vou em busca de mim


Hoje quero a liberdade da criança

Aquela que vivia em busca de nada

Apenas querendo ser alegria

Hoje quero só sossego

Como se vivesse o último domingo


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Sonho

Fotografia de https://www.facebook.com/#!/JCarvalhoPhotography?fref=ts

Talvez eu não fosse senão um sonho e tu alguma forma de energia que me envolvia nas insónias que rondavam as noites.

Na nossa floresta havia flores e céu e acordava-me o cheiro dos lírios com a fome de vida roçando-me a alma.

E se não somos senão sonho com um sonho de viver, esquecidos do tempo e do espaço, vivendo num lento entardecer, mergulhados numa felicidade tépida?

Talvez envolvendo-te no meu choro fazendo-te o meu eco, a floresta te devolva lembrando-me de viver.